sexta-feira, janeiro 27, 2006

dúvida

Me diz, Isolda, por que, por mais que sejamos dois, só há seu perfume nos lençóis e até as violetas têm ua cor?

quarta-feira, janeiro 18, 2006

Noite

Janaína arrumava e desarrumava sua caixa de lembranças. Jogava tudo no chaõ, olhava bilhete por bilhete, carta po carta, foto por foto. E, colocando uma por uma de volta à caixa, meticulosamente, se sentia esvaindo pelos poros.
Izolita tomava uma bela caneca de café com tequila. Com seus olhos fundos, observava Janaína à luz fraca do abajur que ela tinha ao lado da cama.

- Izolita, por que você sempre me deixa bilhetes em papéis rosas? Todas as suas cartas e bilhetes e papéis pequenos, lembretes, todos são em papéis rosas. Nunca vi alguém com tal persistência em comprar bloquinhos dessa cor.

- Só assim você não precisará ler meu nome para saber que sou eu. Algum dia, vai dizer, você fique míope ou tenha astigmatismo, e não leia mais. Saberá, pela cor, mesmo que deesbotada, que eu estive aí, junto com você. Dentro dessa caixa, ou na porta, que nada esteja escrito: ainda assim serei eu.

- Mesmo que eu fique cega, saberei ao toque o que é você em mim e o que sou eu em você.

- Não se preocupe coma cegueira. Passarei a usar perfume para as cartas. E assim, dois dos nossos sentidos saberão que estivemos juntas, ao menos nos bilhetes e nos lembretes.

Aí, Izolita pegou sua bolsa preta que estava pendurada na cabeceira da cama ded Janaína e se despediram com um beijo na testa.

- Izolita! Você ainda é solidão?

- Não, não. Hoje, eu sou só dor.

Querosene

Calamidade tornou à cidade e procurou Clementina, acreditou ter se enganado. Não a achou, perguntou aos amigos, mas ninguém sabia dela. Telefonou, e elas só se acharam em desencontros. Calamidade voltou para a estrada, lágrima por lágrima queimando os pés.

sábado, janeiro 07, 2006

Simples

Virgínia conheceu um moço de cabelos curtos numa esquina qualquer e trocou beijos. Seu nome era Vítor. Vítor e Virgínia trocavam cartas toda semana, e Virgínia as recebia com um sorriso nos lábios. Um dia, ela foi visitá-lo, e isso se repetiu dia após dia, transformando a casualidade de Virgínia em um hábito frequente. Virgínia vez ou outra esquecia pequenas coisas na casa de Vítor, um lápis de olho, um adorno de lábios, uma roupa íntima. Virgínia viveu semanas na casa de Vítor, deixando seu apartamento jogado às aranhas de Daniel, e embora achasse isso belo, era algo que muito a incomodava. Foi-se embora, mas as cartas continuaram. Estranhamente, surgiu-lhe a falta, era a primeira vez que Virgínia sentia falta de alguém que não fosse Adriano. Um mês depois, ela voltou à casa de Vítor e, num abraço desnudo, disse-lhe que havia gostado dele. Vítor disse que estar ao seu lado o divertia, e seus corpos se entrelaçaram. No fim da tarde, Virgínia acordou e dessa vez não esqueceu um vestido saindo com as roupas de outrem. Catou minuciosamente todas as suas coisas que se escondiam abandonadas pelos cantos, tomada por um metodismo excepcional, estranho à sua frequente distração. Colocou as coisas na bolsa, calçou os sapatos e deu beijos apaixonados, que não eram dados senão em Adriano, em Vítor. Despediu-se, desejou-lhe boa sorte. Ele disse até logo. Virgínia fechou a porta atrás de si diposta a não mais abrí-la, disposta a responder secamente as cartas que porventura viessem. Vítor era uma pessoa simples, exatamente como Virgínia desejava. Mas Virgínia desejava alguém que simplesmente a amasse em toda a sua complexidade, e Vítor estava simplesmente interessado na sensação táctil dos corpos. Vítor foi a pessoa mais sincera que Virgínia já conhecera.